Apesar de historiadores e outros grandes estudiosos de renome questionarem e até rejeitarem em muitos casos a autenticidade do documento(alegadamente escrito no sec. XVIII e que reapareceu do "nada" em 1993), figuras importantes das comunidades afro-americanas têem insistido não só na autenticidade do documento como também na sua divulgação, principalmente entre as comunidades "negras".
Uma destas figuras importantes é Louis Farrakhan (na foto) o líder do movimento afro-americano "Black Muslims". Em 1995 em Nova York, num famoso discurso transmitido em directo por varias estações televisivas, Louis Farrakahn se referíu pela primeira vez á carta de Willy Lynch publicamente, classificando-a como um "documento terrível mas verdadeiro, que constitui uma prova inéquivoca e inegavel das astucias iníquas do chamado 'homem branco' contra o chamado 'homem negro' ao longo das últimas gerações".
Visto que acredito serem poucos os angolanos que já tenham ouvido falar ou lido sobre Willy Lynch, decidí tomar hoje a iniciativa e fazer uma reflexão sobre o assunto.
Quem é afinal de contas, Willy Lynch? Qual o conteúdo e proposito da sua carta? Porquê que Louis Farrakhan se refere á carta de Willy Lynch como um "terrível documento"? E que importância tem para nós angolanos, e acima de tudo africanos, o conhecimento do conteúdo da carta de Willy Lynch?
Para encontrarmos as respostas a estas perguntas, precisamos fazer uma viagem imaginária até ao sec. XVIII. Mais precisamente no ano de 1712.
*Quem era Willy Lynch?
William Lynch (o nome William foi mais tarde abreviado para Willy) foi um colonizador e propietário de escravos de naturalidade britanica no sec. XVIII, no caribe (caraíbas) conhecido por manter os seus escravos disciplinados e submissos. Acredita-se que o termo "linchar" (to lynch, lynching: em inglês), se deriva do nome dele. Enquanto que a maioría dos europeus na altura se confrontava com problemas como fugas, revoltas (violentas) colectivas e individuais de escravos, Willy Lynch mantinha aparentemente um controle e ordem absoluta sobre os seus serventes "negros". Segundo se diz, os escravos de Willy Lynch amavam mais ao própio "mestre" do que uns aos outros. Se algum dos seus escravos tentasse fugír ou criar alguma revolta, logo logo era traído por outros companheiros igualmente escravos e igualmente "negros". Esse aparente poder sobre os seus escravos despertou o interesse e a curiosidade de muitos fazendeiros americanos e britanicos que haviam establecido colonias no território da Virginía, América do Norte. Agastados com as constantes insurreições de escravos nas suas fazendas, os fazendeiros americanos decidiram convocar Willy Lynch para Virginía, a fim de ajuda-los a manter o controle sobre os seus escravos.
Em meados de 1712, Willy Lynch faz a longa viagem do caribe para a America do norte. Após a sua chegada em Virginía, e após constatar em loco alguns dos problemas que os seus "Colegas terrorristas" enfrentavam com os escravos raptados de África, Willy Lynch decide escrever uma carta onde ele revelaría o seu segredo para manter os seus escravos na "linha"; (algumas versões dizem que ao invés de uma carta, Willy Lynch fez um discurso perante dezenas de propietários de escravos, onde revelou o seu "segredo"; este discurso foi mais tarde compilado em forma de cartas, e distribuído a varios fazendeiros e colonos não só na América, como também em África, ilhas canárias, e Ásia). Com a carta, Willy Lynch pretendía que seu método fosse divulgado e implementado por todos os propietários de escravos da colonia de Virginia e não só. Willy Lynch espõe o seu orgulho quando escreve na carta que o seu método podía deixar os escravos sob o seu dominío "por centenas, talvéz milhares de anos".
Qual era o segredo de Willy Lynch? Prestemos todos agora muita atenção á carta de Willy Lynch. É importante que cada um de nós como africanos, leiamos o que se segue, e que cada um de nós se questione até que ponto o método de Willy Lynch poderá ter influiênciado naquilo que hoje se classifica como "mentalidade de escravo".
*A Carta de Willy Lynch.
Após as saudações iniciais e manifestar o seu apreço pelo interesse dos fazendeiros americanos em conhecer o seu método para manter os seus escravos submissos, Willy Lynch passa então a revelar o seu "segredo":
" Verifiquei que entre os escravos existem uma série de diferenças" começa Willy Lynch. "Eu tiro partido destas diferenças, aumentando-as. Eu uso o medo, a desconfiança e a inveja para mantê-los debaixo do meu controle (...) Eu vos asseguro que a desconfiança é mais forte que a confiança, e a inveja mais forte que a concórdia, respeito ou admiração".
A seguír, Willy Lynch passa explicar de que maneira faz uso das aparentes diferenças existentes entre os escravos: "Deveís usar os [escravos] mais velhos contra os [escravos] mais jovens e os [escravos] mais jovens contra os [escravos] mais velhos. Deveís usar os escravos mais escuros contra os escravos mais claros e os escravos mais claros contra os escravos mais escuros. Deveís usar as fêmeas contra os machos e os machos contra as fêmeas. Deveís usar os vossos capatazes para semear a desunião entre os negros, mas é necessário que eles [os escravos] confiem e dependam apenas de nós". Mais adiante, no fim da carta, Willy Lynch acrescenta em jeito de despedida: " Meus senhores, estas ferramentas são a vossa chave para o dominío, usem-nas. Nunca percam uma oportunidade (...) se fizerdes intensamente uso delas por 1 ano o escravo permanecerá completamente dominado".
Como podemos interpretar o método de Willy Lynch? Numa só frase: "dividír para dominar". Willy Lynch usava as diferenças de idades e de sexo para meter os escravos uns contra os outros. Usava também a côr da pele (os mais escuros contra os mais claros e vice-versa), para semear a divisão, a desconfiança e o medo entre os seus escravos. Nos Estados Unidos da América, por exemplo, os escravos mais claros eram os mais populares, o que atraía o ódio dos escravos mais escuros, provocando divisão entre ambos os grupos. Willy Lynch criava entre os seus escravos sentimentos de inferioridade em alguns por serem mais velhos ou mais jovens, mais claros ou mais escuros; incutía na mente dos machos que as fêmeas "negras" não tinham beleza nem valor, fazendo com que os seus escravos sentissem mais admiração pela mulher branca; de igual modo, incutía na mente das fêmeas "negras" que o homem "branco" era mais atraente e mais inteligente que o homem "negro"; incutía a desconfiança psicologica entre eles, de modos a que pudessem confiar inteiramente apenas no seu patrão "branco", como se de "deuses" se tratassem. Dividír para dominar. Com esta fórmula bem estudada e implementada, Willy Lynch chegou a gabar-se dizendo: "O escravo depois de indoutrinado desta maneira, permanecerá nesta mentalidade passando-a de geração em geração".
O método de Willy Lynch rapidamente se tornou popular. Em todos as colonias, o método de conquista que passou a ser adotado era o mesmo: dividír para dominar. Os escravos indoutrinados com as ferramentas psicologicas de Willy Lynch passaríam então a padecer de uma enfermidade mental que hoje é classificada em alguns círculos como a " síndrome de Willy Lynch", ou seja, a mentalidade de escravo. Mas até que ponto foi o método de Willy Lynch eficaz? Tomemos como exemplo, Rwanda.
Anaíse Risagina (na foto) é uma refugiada do Rwanda(tutsi), de 27 anos de idade, actualmente residente no reino da Holanda. Visto que somos bons amigos, recentemente andamos a conversar sobre os acontecimentos de Rwanda em 1994. Pedí a Anaíse, que me relatasse de maneira resumída, as causas que estiveram na origem daquele conflicto genocídico. Atravéz de um e-mail, Anaíse me respondeu com as seguíntes informações interessantes:
" Sempre houve alguma tensão entre a maioría hutus e a minoría tutsis no Rwanda, mas antes do periúdo colonial as divergências entre ambos os grupos não era coisa muito séria. Os dois grupos étnicos não têem muitas diferenças entre um e outro, fisicamente um Hutu pode ser confundido com um tutsi. Mas, alguns tutsis são realmente mais claros, mais altos, e alguns que habitam mais a norte têem uma aparência que se assemelha mais aos somalís ou aos etíopes. Mas falamos a mesma língua, gostamos da mesma comida, habitamos nas mesmas áreas e temos as mesmas tradições (...) mas quando os colonialistas belgas chegaram em 1916 eles é que viram diferenças entre os dois grupos étnicos. Para eles eramos entidades distintas e até produziram diferentes cartões de identidades para cada uma das étnias (...) classificavam as pessoas de acordo com a étnia (...) mas antes deles chegarem nós não viamos estas diferenças que eles viram".
Segundo Anaíse, "os belgas consideraram os tutsis como superiores aos hutus e os tutsis é claro que também ficaram a gostar (...) dizem que medíam os narizes dos hutus e tutsis e eles diziam que os tutsis têem o naríz mais fino (...) nos 20 anos seguintes os tutsis lhes davam melhores empregos e até melhores oportunidades para estudar do que os seus vizinhos hutus..."
Pelo relato de Anaíse, fica mais do que evidente o método de Willy Lynch: dividír para dominar foi o método utilizado pelos belgas. Em 1962, quando os belgas concederam independencia á Rwanda, os hutus assumiram então o controle do poder. Logo logo os tutsis se tornaram os bodes espiatorios para todas as desgraças. Ambos os grupos estavam assim infectados pela "síndrome de Willy Lynch", uma doença "terrível", que segundo Lynch, "sería passada de geraçao a geração". A desconfiança entre as duas étnias se agravou a ponto de explodír como vimos acontecer em 1994.
Em Angola não foi diferente. Quando os terrorrístas-colonialistas portugueses ocuparam o nosso território, o método de Willy Lynch foi a ferramenta usada para a conquista psicologica do nosso povo. Passaram a dividír os angolanos entre os assimilados e os indígenas. Os assimilados, ganhavam este "status" depois de mostrarem que dominavam melhor a língua portuguesa, que estavam melhor integrados na cultura e na sociedade portuguesa, e os que em certa medida tivessem tido maiores oportunidades educacionais. Os indígenas, eram os analfabetos, os que por livre vontade ou que por falta de oportunidade não tiveram acesso ao estudo, ou á integração á cultura portuguesa; eram aqueles que usavam a língua regional como meio de comunicação e a cultura africana como modo de vida. Por darem mais vantagens aos assimilados, os terrorristas-colonialistas passavam uma mensagem clara aos desgraçados indígenas: aquele grupo [os assimilados] era o predilecto. Era o grupo "abençoado", o grupo dos merecedores. Tinham acesso aos melhores empregos, podíam trabalhar directamente até no gabinete com o "branco". Comprêensivelmente, toda esta situação criou o ódio dos índigenas pelos seus "irmãos assimilados", pois estes [os indígenas] passaram a vêr os seus irmãos como um entrave a conquista da independência. Ambos os grupos na verdade já estavam afectados pela "Síndrome de Willy Lynch". Mas os terrorrístas-colonialistas portugueses não ficaram por aí. Eles decidiram usar mesmo a fundo o método de Willy Lynch. Para criar ainda mais divisão entre as diferentes raças de angolanos, os "Lynchistas" incutíam na mentalidade dos mais claros o sentimento de "superioridade" em relação aos mais escuros. Estes, apenas pela côr da pele, tinham acesso mais facil aos empregos e a escola em relação aos mais escuros. Estava assim criado o cenário para que a "Síndrome de Willy Lynch" se espalhasse entre o nosso povo (que doença maldita!) e a sua dose foi tão forte que pelos vistos, tem sido passada de "geração em geração". Prova de que esta doença ainda prevalece entre nós angolanos, é o seguínte comentario feito recentemente por alguém que assina como "Bantu melhorado(mulato)" no site club-k.net. Ele escreveu o seguínte:
" Os mulatos, também somos bantus...bantus superiores...porque melhoramos a raça...estamos genéticamente melhorados...todo negro inteligente, deve casar uma branca para melhorar a raça...!(...)se os mulatos estivessem no poder em Angola, como em Cabo-verde, este sería sem duvidas um país melhor".
Considerar-se melhor apenas por ser "mulato" revela que a "Síndrome de Willy Lynch" continua a causar mal á mente de muitas pessoas. É exactamente esse o tipo de mentalidade que Willy Lynch quís introduzír em todo homem "negro". Fazer-lhe pensar que é superior por ser mais claro em relação aos outros. Fazer-lhe sentír-se melhor, e mais capaz apenas por ser mais claro. Tudo mentira. Tudo um método de conquista psicologica, que infelízmente ainda causa divisião entre nós. Mas não é só "a síndrome de Willy Lynch" que ainda prevalece. Ainda existem muitos daqueles, de pele considerada "branca", que têem a "mentalidade de Willy Lynch". Essa minha afirmação pode ser confirmada por um outro comentario expresso no club-k.net, cujo conteúdo é conhecido pelos que frequentam o referído site. Diz assim:
" Ser negro já é dificíl, mas negro e burro é uma desgraça".
Assim tem comentado alguém que diz ser "Branco da Capital". Ao lêr este tipo de comentario, me apercebo que afinal, não existe mesmo raça superior a outra. Todos cometem "gafes" absurdas. Mas há ainda outro pormenor que este comentario me revela: nós os "pretos", sei lá se por causa da "Síndrome de Willy Lynch" ou não, encaramos o "branco" como pessoas que estudaram mais, e que por natureza, são mais inteligentes e civilizados. Os comentarios do "Branco da Capital" confirmam que afinal nós "os pretos" andamos a séculos enganados!
Mas há ainda outro factor a considerar: que efeito deve ter sobre nós, o conhecimento da carta de Willy Lynch?
*A Carta de Willy Lynch e você
A primeira vez que li a carta de Willy Lynch, passei a perceber melhor as causas de muitos problemas dos africanos. Comecei a perceber melhor os efeitos que a escravidão e o colonialísmo teve sobre o nosso povo. Um dos piores efeitos, é que o colonialismo retirou o amor aos africanos. Os africanos passaram a odiar-se por coisas aparentes mas quase nunca por coisas reais. Decidí quebrar a corrente. Comecei a perceber que afinal, não tenho nada que odiar alguém por ser mais claro ou mais escuro do que eu. Não tenho nada que chamar alguém de Zazá ou zaicó-langa langa, apenas por se expressar num português deficiênte. Descobrí que é futíl julgar as pessoas pelas suas origens étnicas, côr da pele, ou língua regional. Afinal somos todos africanos, somos todos irmãos da mesma terra e do mesmo continente, mas de certa maneira, "divididos" pela terrível doença que é a "Síndrome de Willy Lynch".
Sempre que você julgar alguém por ser Bakongo...ou de outra etnía qualquer...lembre-se de Willy Lynch!
Sempre que você conceber ou apoiar ideias que instiguem ao racismo e todo tipo de ísmos entre os africanos...lembre-se de Willy Lynch!
Sempre que você sentír-se inferior apenas por ser do norte ou do sul...lembre-se de Willy Lynch!
Sempre que você julgar que por casar com uma branca estás avançando a raça...lembre-se de Willy Lynch!
E sempre que você sentír-se inferior quando estiver ao lado do "branco", apenas por seres "negro"...lembre-se de Willy Lynch!
Para lêr a carta (ou discurso) completa/o de Willy Lynch ( apenas disponível em inglês), clique em http://www.ithappened2me.com e entre na Janela no canto esquerdo com o titulo " Slave Mentality".
Leia também sobre a colonização em Angola do ponto de vista de um angolano clicando AQUI
*Osvaldo S. Rodrigues
Fonte:http://blog.comunidades.net/osvaldo/ |