Ou seja, vem de uma família pobre, cresce sedento da liberdade, amadurece politicamente na cadeia (passou dez anos encarcerado), reaparece livre erguendo o orgulho do povo e finalmente embarca na liderança dos destinos do novo estado. Mugabe, tal como Keneth Kaunda para a Zâmbia, foi um dos heróis da independência do seu país.
Se o Zimbabwe possuía, nos anos 80, a economia modelo para a região sul de África, senão para todo o continente, hoje é flagelado pela maior inflação monetária do mundo, tendo mesmo o dólar Zimbabweano atingido, a 22 de Junho último, o índice inflacionário de 11000%, Segundo o FMI. A esperança média de vida no Zimbabwe, senão a desesperança, é nada mais nada menos que 37 anos para homens e 34 para mulheres, sendo a realidade actual do Zimbabwe que conhecemos como “o paraíso de África negra”, um gritante retrocesso face aos anseios nutridos pela luta pelo resgate da liberdade. Enfrentar hoje o dia-a-dia do Zimbabwe, para um pacato cidadão, demostra um grande desafio ao patriotismo.
A política agrária que devastou a economia do país, demostrou a inoperabilidade da gestão Africana, que infelizmente ainda se baseia no nepotismo e confradio. Terrenos férteis recebidos aos fazendeiros brancos foram entregues a familiares de ministros, antigos combatentes e membros da ZANU-PF(partido no poder). Pessoas essas que pura e simplesmente não tinham intenção em cultivá-los, por falta de interesse ou por falta de meios económicos, o que significa que terá havido a cumplicidade do próprio governo na sabotagem da economia do país por questões ideológico-partidárias.
Pois então, como justificar o resgate dessas terras, se nem o governo tinha um plano director para a manutenção das actividades outrora praticada pelos fazendeiros brancos?
Terá havido ingenuidade na adopção destas medidas?
Que benefícios terão os Zimbabweanos saboreado desta dita acção de soberania? Nenhum.
São essas acções mal equacionadas que ainda mantêm os Africanos negros no quadro negro da gestão, e reforçam as teorias (dispersas) que proliferam teses de que os Africanos são inferiores em raciocínio em relação ao homem branco. Pois que, por mais que gritemos e repudiemos essas afirmações, as nossa acções governativas justificam tais afirmações e expõem ao ridículo qualquer pessoa que queira defender o contrário.
Boa gestão e governação seriam a melhor resposta aos críticos do continente. Combinar o exemplo da Ásia( que depois da segunda mundial esteve de rastos, mas que decidiu investir no homem e hoje manifesta grande influência na economia mundial), com as ricas reservas minerais do nosso subsolo, assim como a fertilidade dos nossos solos promoveriam o continente nos patamares do desenvolvimento seguro. Mas, o grande ‘calcanhar de Aquiles’ seria a aceitação de inovações nas actuas políticas económicas e sociais por parte da elite governativa actual, cujo desempenho estratégico revela-se, infelizmente, mais num assentamento imediatista. Claro que nem todos os líderes Africanos são maus gestores, o exemplo vem de Moçambique, cuja boa gestão foi reconhecida, com a recente premiação de Joaquim Chissano com o “prémio de boa governação”, cujo valor atingiu 3.5 milhões de Euros.
Mais de quarenta anos, desde que os primeiros países Africanos se tornaram independentes, deveriam gerar esperança e prosperidade e não desunião e desespero. É necessário que haja um basta aos anseios permanentes da Maná do Ocidente, pois que isso não vai resolver o problema. Pelo contrário, vai alimentar as gerações futuras com preconceitos de incapacidade na gestão dos nossos destinos. A Europa, tal como a África, também tem os seus problemas nos quais precisa ver os seus líderes envolvidos completamente mais, a nova geração de políticos Europeus não é obrigada a manter incondicional a ajuda pelo continente Africano, simplesmente porque os seus ancestrais colonizaram a África.
O exemplo do Zimbabwe é mau e merece condenação de todos, pois que não se pode continuamente evocar a colonização e atitudes neocoloniais dos Europeus como as únicas razões do empobrecimento do continente. E atitudes, tais como as do Mugabe (hoje com 82 anos de idade) de manter refém o seu país ao desenvolvimento, simplesmente para saldar disputas pessoais com o Ocidente, reflectem anacronismo e são maléficas aos tempos que vivemos.
Por isso, a atitude de Gordon Brown (actual primeiro-ministro Britânico) de boicotar a próxima Cimeira de Lisboa, em Dezembro, entre os líderes de África e Europa, caso o R. Mugabe participe, é bem-vinda. Não ameaça, de maneira nenhuma, a soberania Africana, mas chama atenção aos Africanos no sentido de erguerem barreiras à intolerância política e a má governação, que somente atrasam o progresso do mesmo.
Será positivo se, os nossos “séculos” (mais velhos, em Umbundo) que estão na direcção política e se preocupam com o desenvolvimento de África, aproveitarem este momento para exortar ao Mugabe, ou se for necessário isolá-lo, de formas que o Zimbabwe deixe de ser aquilo que é hoje: um paraíso desmoronado.
Fonte: gingaocultural.org |