Revista Ngingão: O que levou-te a viver na Itália?
Epandi Van Dunem: Foi por acaso, porque como todos os jovens em Angola o sonho era os Estados Unidos mais fui aconselhada por uma tia que trabalha nas Nações Unidas e que trabalhou por uns tempos nos Estados Unidos, e convenceu-me a não ir para lá e disse-me que para o curso que tinha escolhido era melhor a Itália. Confiando na sua experiência acabei por optar pela ‘Bella’ Itália, e cá entre nos, estou muito contente por não ter ido aos Estados Unidos.
R.N. A quanto tempo vives na Itália?
E.V. Estou na Itália á 8 anos.
R.N. Gosta da carreira profissional que estas a seguir?
E.V. Adoro e me dá uma grande satisfação.
Porque é que escolheu arquitectura?
Eu tinha em mente em fazer ‘Interior design’ mais justamente o meu pai fez-me notar que este tipo de curso em Angola não me levaria a parte alguma, seria difícil encontrar trabalho neste ramo, embora não ter sido a minha primeira escolha, acabei por estudar arquitectura.
compreendia que no futuro esta profissão me dará a possibilidade de especializar-me em ‘interior desing’, que foi sempre a minha escolha preferida. Com o passar dos anos de estudos descobri que a arquitectura oferece muito mais e abre-te um mundo completamente novo.
O quê é necessário para que um estudante se torne num bom arquitecto?
Tem que ter Paixão. Acho que ninguém é bom naquilo que faz sem ter paixão. Arquitecto, advogado, médico, etc. As coisas tornam-se mais fáceis se amares a tua profissão, facilitando o resultados positivos no seu trabalho.
Depois de terminado o curso, pensas um dia voltar a viver ou trabalhar em Angola ou acabarás por ficar na Europa?
Eu nunca pensei em ficar na Europa. Sempre tive em mente voltar para a Angola assim que terminasse com os estudos. Neste momento estou de malas feitas para regressar as origens, na tentativa de começar a exercitar em aquilo que estudei todos estes anos.
Porque?
Acho que é dever de todos nós que estamos a estudar na diáspora, uma vez finalizado o curso, ajudar na reconstrução do nosso Grande País. O que mais me aborrece é que se precisa de pessoas qualificadas em todos os sectores em Angola mais somos postos de lado pelo governo, e não faz absolutamente nada para valorizar os quadros angolanos. O governo preferi ir buscar estrangeiros do que dar oportunidades aos autóctones. Mais isto não vai me desmoralizar, porque o mais importante é tentar e se não der, seguirei outras estradas.
O que mais admiras no país em que vives?
O que mais gosto deste país é que viajando do Norte ao sul, tudo muda é como se viajasse de um país para o outro. Mudam as culturas, mudam as paisagens, as pessoas e como estivesse a viajar para países diferentes sem sair das fronteiras italianas.
A Itália é sem dúvidas um país de Cultura linda. Metade do património da UNESCO se concentra na Itália.
E o que detesta?
O que detesto, é a falsidade dos italianos, fingem-se não são racistas e amigáveis mais no fundo são os piores.
Achas que os estudantes angolanos enfrentam muitas dificuldades para manter-se nas universidades e finalizar o curso superior no estrangeiro?
Sim, muitas. Tanto que muitos são forçados a desistirem dos estudos para trabalhar a fim de conseguirem se sustentar.
Quanto tempo falta para concluíres o teu curso?
Já conclui este ano, espero começar a exercitar o mais rápido possível.
Como se chama a faculdade em que concluiu o seu curso?
Universidade IUAV de Veneza, curso de Arquitectura.
Beneficiastes de uma bolsa de estudo ou estudas por conta própria?
Felizmente fui beneficiária de uma bolsa de estudos é o que me deu a possibilidade de não dividir o meu tempo entre os estudos e o trabalho. Trabalhava apenas no período do verão para não interferir com os meus estudos.
Podemos chamar-te já arquitecta?
Sim.
Profissionalmente já tens feito trabalhos relacionados a tua carreira?
Não muito, pelo menos quanto gostaria. Mais fiz um estágio no Governo Provincial de Luanda, na Enea e no estúdio de arquitectura “Studio Seste em Roma”.
Caso pudesses, o que mudarias em Angola?
É difícil responder a esta pergunta.
Do ponto de vista naturalístico e ambiental, acho Angola um país maravilhoso, e não digo isto por ser angolana, mas porque é difícil encontrar um país onde tens o mar, o deserto, as montanhas, as savanas e a floresta tropical.
No que diz respeito a situação política e social, acho que não baste o espaço que me foi dado a disposição mas vou tentar ser muito breve. Iria fazer uma tabela rasa. Angola precisa de uma mudança radical. Recomeçar com outros ideais, com outra visão política e social.
E nos Angolanos?
Nos angolanos, a única coisa que mudaria é o complexo de inferioridade que tem diante do europeu. Posso entender os 500 anos de colonialismo mais temos de começar a ser mais corajosos e enfrentar o “homem branco” de igual para igual. O resto é um povo maravilhoso cheio de vitalidade e jóia de viver.
O quê fazes nas horas livres?
Eu de natureza sou preguiçosa, a primeira possibilidade que tenho me meto a ver um DVD ou a ler um bom livro no cadeirão. Mais se tiver em boa companhia gosto de me divertir:
Sair com amigos, ir as discotecas como todos os jovens, ir ver uma exposição de arte (e Veneza oferece muito neste sentido), ir ao cinema ou então ir tomar um ‘shoppy’ com amigos.
Uma mensagem dirigida a quem seja.
“Força e coragem que o mal é passageiro’ o futuro é sempre melhor. É só acreditar e lutar por ele.
Fonte: gingaocultural.org |