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A Violência das Comunidades negras - Sousa Jamba
(29/08/07)

 

EUA - No Reino Unido, questiona-se de forma insistente a razão que está por trás da cultura de violência entre os jovens negros. Recentemente, o reverendo Jesse Jackson, um activista negro americano de direitos civis, esteve em Londres e atribuiu a violência entre os jovens negros à pobreza e à exclusão social.

 

O ministro da Justiça, Jack Straw, respondeu imediatamente e fez uma afirmação que não agradou nada a significativos segmentos da comunidade negra. Segundo o ministro, os rapazes negros ingressavam em gangs que eram violentas porque crescem em lares onde os pais estão geralmente ausentes. Estou particularmente interessado na questão da violência das gangs negras em Londres porque, durante os muitos anos que lá vivi, a questão do insucesso dos rapazes negros era algo debatido calorosa e permanentemente.

Em Novembro do ano passado, soube, também de membros de uma gang – descrita como uma das mais violentas de Londres – que integrava rapazes de origem angolana. Nos anos 90, muitos angolanos com nacionalidade portuguesa emigraram para Londres. De repetente, Londres passou a ter muitas discotecas angolanas.

Só que, muitas dessas casas encerravam quase imediatamente porque lá a violência era o pão-nosso de cada dia. E os jovens que apareciam nessas discotecas a conduzirem Bmw’s, eram uns verdadeiros gangsters, com aquela arrogância e ar de invencibilidade de sempre. A gang a que me referi acima, a tal que integrava jovens de origem angolana, atacava brutalmente gente completamente inocente forçando-as a declarar o código do Multibanco [equivalente ao Multicaixa em Angola] e a dar os seus haveres. Só que esses gangsters não eram muito inteligentes: depois de roubarem os telefones celulares, eles chamavam logo as suas namoradas e amigos. E os mesmos utilizavam os Mercedes e Bmw’s que acabavam de roubar para irem às discotecas.

A polícia detectava-lhes quase imediatamente após as acções. Ultimamente, nos bairros da periferia de Londres, onde a maior parte dos negros vive, houve vários homicídios, cometidos por rapazes negros contra os outros jovens da mesma raça. Várias razões já foram citadas para explicar este fenómeno. Uns dizem que tudo tem a ver com os videojogos. Os outros apontam aos Estados Unidos e a cultura da violência que é glorificada na música rap como causa. Os outros, como já disse, apontam razões de ordem socioeconómicas.

No Reino Unido, até diz-se que oficiais negros do exército – como o comodoro David Case, que é o oficial negro com a patente mais alta nas Forças Armadas britânicas – deveriam servir como modelos para os jovens em vez de os espelhos desses rapazes serem músicos como 50 Cent. Nisto tudo, sinto que as autoridades não estão a analisar o fenómeno de uma forma metódica. Nem todos os jovens negros – nos Estados Unidos e na Inglaterra – são violentos ou envolvem-se em actos criminosos.

A grande questão é o que leva, afinal, a que essas secções da comunidade passem a singrar. Entre os imigrantes negros para os Estados Unidos, por exemplo, os jamaicanos têm tido muitos êxitos. (Collin Powell é de origem jamaicana). Seja no Reino Unido ou os Estados Unidos, entre os negros gente de origem eritreia ou da Etiópia têm tido também muitos êxitos. Emigrantes da África Austral e Oriental – Zâmbia, Zimbabwe, Quénia – também têm singrado. A razão que está por detrás disto deve ser o que pode ser descrito como a coesão cultural.

Os etíopes e eritreus têm muito orgulho das suas origens; os seus filhos, por mais instruídos que sejam, nunca tentam negar as suas origens. É raro encontrar jovens desta parte do mundo que casam fora do seu grupo étnico. Além de se casarem entre eles, os eritreus sempre se ajudam. Um senhor com uma bomba de gasolina na Flórida pode alertar logo o seu primo na Califórnia das oportunidades que existem lá onde ele vive. Quando há festas, nestas comunidades, os mais velhos passam, também, a notar quais são as meninas e meninos que estão à altura de se casarem, etc. Os jovens vindos dessas comunidades sentem que são representantes dos seus clãs. Neste mundo, comportar-se mal significa envergonhar não só os seus parentes mais próximos, como também os seus antepassados.

Nas comunidades angolanas que emigram, noto que os rapazes que muitas das vezes acabam nas gangs são aqueles que não querem saber das suas origens. Muitos garotos até recusam-se a falar português ou comer comida angolana. Já ouvi – sobretudo nos Estados Unidos – muitas jovens angolanas a dizerem, como muito orgulho, que com angolanos não se casariam. (Será que isto é, também, uma reacção a rapazes que dizem que com angolanas crescidas no Ocidente não se casam e que preferem uma «purinha» vinda da banda?). Esses jovens passam, muito cedo, a serem rebeldes, não só contra as suas famílias mas também contra a sociedade inteira. Os jovens negros deveriam reencontrar-se com os valores africanos. E isto inclui o respeito aos mais velhos e a capacidade de respeitar os outros, que infelizmente escasseia nos dias de hoje.

Fonte: SA

   
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